Outras coisas
Foi um dia estafante, mas
finalmente havia encontrado o filho da puta do gringo para me pagar o
arrendamento de soja. Consegui sacar dele o dinheiro que precisava. O dia e o
mês estavam salvos. Agora poderia ir tranquilo a minha primeira aula no curso
de oficina literária. Um curso que sempre pensei em fazer. Sou um artista,
divagava, enquanto pisava firme pelas calçadas de Bagé. Precisava sentir cada
passo para lembrar que estava vivo.
O curso era dado na “Casa Prosa” a poucas quadras de onde eu morava. Uma casa singular entre as demais
casas coloniais portuguesas da cidade. Ao contrário das demais,
conservadoras nas cores, ela era pintada de rosa, como as duas janelas frontais
pintadas de amarelo com detalhes em azul. Entrei ansioso pelo portão de ferro
que dava direto para o pátio onde logo se via uma grande parreira. Uvas. Adoro
uvas. Fui recebido pela professora Lia, a qual me dirigiu à cozinha da casa e
me ofereceu o café recém passado me convidando para sentar na pequena mesa
redonda coberta por uma toalha adornada por desenhos florais daquelas que se
encontram em qualquer camelô. Ela era amável e bela, sem mostrar afetação ou
orgulho ou superioridade. Era simples e elegante. Notei um pequeno rastro de tristeza em seus
olhos por traz dos arredondados óculos de grau.
Ao sentar, enquanto a professora
conversava com outra aluna - senhora de idade que me pareceu bem pedante - notei o grande filtro d’água feito de argila
cor de carne sob um velho fogão à lenha onde haviam colocado um adesivo rosa
onde estava escrito "Por trás de uma grande mulher está ela mesma". Feministas. Veio-me
à cabeça o abajur cor de carne da menina veneno de Ritchie.
Então o a aula seria na cozinha,
pensei desconfiado. Esperava algo mais
formal. Bueno, vamos lá. O que tenho a perder. "When you got nothing, you got nothing to lose....."
Começou a aula com a Professora
Lia (estranhava-me verbalizar professora do alto da minha arrogância)
explicando como funcionava o curso e o que seria visto naquele dia: diálogos e
descrição. A primeira parte teórica a segunda prática. Escrevi um pouco e ouvi
meu cérebro pedindo nicotina, nicotina, nicotina. Um pouco envergonhado pedi
licença para fumar no pátio. Fumantes são mal vistos nos dias do politicamente
correto. Novamente fui surpreendido com a simplicidade da professora que
prontamente cedeu ao meu pedido sem demonstrar preconceito. Ainda sou do tempo
em que fumar era bonito e dar cu era feio, hoje dar cu é bonito fumar é feio,
ri por dentro com tal escatologia. Fica quieto, rapaz! Estava ali para
aprender. Ah! Falsa humildade! Estava ali pensando em outras coisas.