terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O Manual

O MANUAL
               Fui sentenciado a um ano de isolamento. Viverei numa cela sozinho e só terei como companhia um manual de instruções do centro de detenção, um bloco de escrever e um lápis. Não terei qualquer contato com o mundo exterior.  A única regalia prometida é a de ver minha filha uma vez a cada  mês no salão de visitas do centro, isso se ela quiser ver seu pai considerado incapaz. Será minha única chance de ver outros isolados, os quais são proibidos de se comunicarem entre si. Alem do isolamento, o silêncio.  Não sei o teor nem o porquê da minha condenação, alguns dizem que o sistema apenas me jogou no lixo por algum tempo pois não sirvo para nada. Não consumo, não produzo, contribuo para o aumento populacional e ainda defeco nos esgotos abarrotados  que poluem os  rios das da grandes cidades. Sou uma praga ambiental. Sendo assim, para o sistema, a lógica é me manter isolado no lixão humano, onde não poderei desequilibrar o meio ambiente. São milhares como eu. Milhares de pragas ambientais expurgadas do mundo para mantê-lo  limpo e sadio. Mas quem nos manterá vivos? Por que apenas não nos matam como nos remotos  campos de concentração nazistas. Talvez esperem uma catarse humana, uma regeneração e se sairmos vivos e sãos poderemos ser seres funcionais robóticos na evolução limpa, sustentável e orgânica do planeta, substituindo outras pragas humanas numa infinita rotação, imagino eu enquanto tento dormir no fino colchão branco suportado pelo concreto há trina centímetros do chão na limpa e pequena cela. Apagaram as luzes. Dormi.
          Uma sirene tocou. Apanhei o manual pra ver qual era o itinerário,  ontem quando cheguei estava tão abalado pelos acontecimentos que sequer dei uma olhada nas instruções. Sete horas. Acordar. Sete e meia. Desjejum. Levantei, lavei meu rosto na pequena e limpa pia. Água potável. Defequei na pequena e limpa latrina a vácuo e notei a câmera de monitoração acima de minha cabeça. Sorria você esta sendo filmado  cagando ao vivo. Nenhum odor desagradável pairou no diminuto cômodo. Segui o manual. Banho de corpo inteiro no chuveiro individual fechado hermeticamente, do tamanho das velhas cabines telefônicas inglesas só que brancas, com  um ralo extremamente eficiente no meio. O manual mandava apertar o botão azul para a água, a verde para a higiene corporal, a amarela para acionar o secador, uma espécie de jatos de ar quente, como as que secamos as mãos nos shoppings e restaurantes, a diferença é que o secador saía de várias aberturas da cabine estrategicamente instaladas. Em cinco minutos eu estava seco. Não havia toalhas, não era necessário. Saí da cabine de banho me sentindo extremamente limpo. O próximo passo. Abrir o pequeno armário onde estava guardado um conjunto de camisa, calca, meias, e uma pantufa. Produtos sintéticos, mas confortáveis. Algodão é para poucos. Um leve sinal sonoro vindo da porta  e uma pequena bandeja é colocada automaticamente sob uma mesa. Não vi mãos, não escutei passos nem ouvi vozes. É o desjejum. Uma caneca cheia de um líquido opaco e  batido, não identifiquei gosto algum. Não era um mingau de aveia ou uma batida de banana,  tinha um gosto,  só não sei de que, nem bom nem ruim. Após, um copo de água e três comprimidos que deveriam ser tomados apos sorver toda a caneca.  De novo as cores: azul, amarelo e verde. Segui o procedimento sem protestar para a câmera. Tenho certeza que de nada adiantaria, e no fundo ainda tenho a esperança, ou ilusão, de que tudo não passa de um mal entendido e se me comportar de acordo com o manual logo sairei desse confinamento sem janelas. Consultei novamente o manual. Nada mais para o dia.  Não senti fome e adormeci novamente.

          Acordei assustado. Pânico. Sem saber onde estava. Desorientado. Não havia relógios nem luz solar para  saber o quanto tinha dormido,se era dia ou se era  noite. Aos poucos retomei a sanidade e lembrei que estava confinado e que os remédios teriam algum efeito colateral. Conspiração. Procurei pelo manual que havia colocado na pequena escrivaninha com o bloco de papel e lápis, mas não estava lá. Procurei por toda cela e não achei, foi quando o sinal da porta tocou novamente e um novo manual foi colocado sobre a mesa da porta, da mesma forma com fora servido o desjejum. Uma sensação fantasmagórica tomou conta de mim. Certamente alguém estivera ali enquanto eu dormia para retirar o manual e colocar o outro. Como não vi, não escutei, não senti? Os comprimidos. Abri o novo manual. Refeição da tarde as quatro horas. Informação importante. Agora sabia quanto tempo havia dormido, ou apagado. Será?  O sinal tocou, a bandeja surgiu pela porta sem nenhum ruído humano, a mesma caneca com o liquido opaco - vitaminas? -  um copo d'água e apenas um comprimido de cor preta. Segui as instruções. Sentei-me a escrivaninha  peguei o bloco e o lápis e comecei a desenhar formas abstratas e sem sentido para distrair a mente. Então o  pesadelo começou. Senti um forte enjoou que me fez  vomitar sem parar, mil agulhas queriam sair da minha cabeça   e não conseguia tirá-las pois não conseguia sequer levantar  as mãos, meu corpo desfaleceu e caiu ao chão enquanto sentia a urina e a merda viscosa escorrerem entre minhas pernas sem precisar  fazer qualquer esforço, como se meu intestino e bexiga e meu estomago não me pertencessem. Haviam ganhado vida e livre arbítrio.  Tentei gritar, pedir ajuda para a câmera vigilante, mas quando abria a boca só um vômito incolor vertia. Eu tinha perdido o controle sobre meu organismo. Agonizava e a esperança de sair vivo e rever minha filha se esvaiu assim como todos os fluidos fétidos   que jorravam por todos os meus orifícios  até sobrar somente a  pele enrugada colada aos ossos. A cela antes tão limpa e sem odor, agora era pura podridão com cheiro de morte.

Miss Lexotan 6 mg. Andreia entrou de férias e foi beber com os amigos . Tinha tentado parar com a bebida por seis meses mas a tentação de...