O
MANUAL
Fui
sentenciado a um ano de isolamento. Viverei numa cela sozinho e só terei como companhia um manual de instruções
do centro de detenção, um bloco de escrever e um lápis. Não terei qualquer
contato com o mundo exterior. A única
regalia prometida é a de ver minha filha uma vez a cada mês no salão de visitas do centro, isso se
ela quiser ver seu pai considerado incapaz. Será minha única chance de ver
outros isolados, os quais são proibidos de se comunicarem entre si. Alem do
isolamento, o silêncio. Não sei o teor
nem o porquê da minha condenação, alguns dizem que o sistema apenas me jogou no
lixo por algum tempo pois não sirvo para nada. Não consumo, não produzo,
contribuo para o aumento populacional e ainda defeco nos esgotos abarrotados que poluem os
rios das da grandes cidades. Sou uma praga ambiental. Sendo assim, para
o sistema, a lógica é me manter isolado no lixão humano, onde não poderei
desequilibrar o meio ambiente. São milhares como eu. Milhares de pragas ambientais
expurgadas do mundo para mantê-lo limpo
e sadio. Mas quem nos manterá vivos? Por que apenas não nos matam como nos
remotos campos de concentração nazistas.
Talvez esperem uma catarse humana, uma regeneração e se sairmos vivos e sãos
poderemos ser seres funcionais robóticos na evolução limpa, sustentável e orgânica
do planeta, substituindo outras pragas humanas numa infinita rotação, imagino
eu enquanto tento dormir no fino colchão branco suportado pelo concreto há
trina centímetros do chão na limpa e pequena cela. Apagaram as luzes. Dormi.
Uma sirene tocou. Apanhei o manual pra ver qual era o itinerário,
ontem quando cheguei estava tão abalado
pelos acontecimentos que sequer dei uma olhada nas instruções. Sete horas.
Acordar. Sete e meia. Desjejum. Levantei, lavei meu rosto na pequena e limpa
pia. Água potável. Defequei na pequena e limpa latrina a vácuo e notei a câmera
de monitoração acima de minha cabeça. Sorria você esta sendo filmado cagando ao vivo. Nenhum odor desagradável
pairou no diminuto cômodo. Segui o manual. Banho de corpo inteiro no chuveiro
individual fechado hermeticamente, do tamanho das velhas cabines telefônicas
inglesas só que brancas, com um ralo extremamente
eficiente no meio. O manual mandava apertar o botão azul para a água, a verde
para a higiene corporal, a amarela para acionar o secador, uma espécie de jatos
de ar quente, como as que secamos as mãos nos shoppings e restaurantes, a diferença
é que o secador saía de várias aberturas da cabine estrategicamente instaladas.
Em cinco minutos eu estava seco. Não havia toalhas, não era necessário. Saí da
cabine de banho me sentindo extremamente limpo. O próximo passo. Abrir o
pequeno armário onde estava guardado um conjunto de camisa, calca, meias, e uma
pantufa. Produtos sintéticos, mas confortáveis. Algodão é para poucos. Um leve
sinal sonoro vindo da porta e uma
pequena bandeja é colocada automaticamente sob uma mesa. Não vi mãos, não escutei
passos nem ouvi vozes. É o desjejum. Uma caneca cheia de um líquido opaco e batido, não identifiquei gosto algum. Não era
um mingau de aveia ou uma batida de banana, tinha um gosto, só não sei de que, nem bom nem ruim. Após, um
copo de água e três comprimidos que deveriam ser tomados apos sorver toda a
caneca. De novo as cores: azul, amarelo
e verde. Segui o procedimento sem protestar para a câmera. Tenho certeza que de
nada adiantaria, e no fundo ainda tenho a esperança, ou ilusão, de que tudo não
passa de um mal entendido e se me comportar de acordo com o manual logo sairei
desse confinamento sem janelas. Consultei novamente o manual. Nada mais para o
dia. Não senti fome e adormeci
novamente.
Acordei assustado. Pânico. Sem saber onde estava.
Desorientado. Não havia relógios nem luz solar para saber o quanto tinha dormido,se era dia ou se
era noite. Aos poucos retomei a sanidade
e lembrei que estava confinado e que os remédios teriam algum efeito colateral.
Conspiração. Procurei pelo manual que havia colocado na pequena escrivaninha
com o bloco de papel e lápis, mas não estava lá. Procurei por toda cela e não
achei, foi quando o sinal da porta tocou novamente e um novo manual foi
colocado sobre a mesa da porta, da mesma forma com fora servido o desjejum. Uma
sensação fantasmagórica tomou conta de mim. Certamente alguém estivera ali
enquanto eu dormia para retirar o manual e colocar o outro. Como não vi, não
escutei, não senti? Os comprimidos. Abri o novo manual. Refeição da tarde as
quatro horas. Informação importante. Agora sabia quanto tempo havia dormido, ou
apagado. Será? O sinal tocou, a bandeja
surgiu pela porta sem nenhum ruído humano, a mesma caneca com o liquido opaco -
vitaminas? - um copo d'água e apenas um
comprimido de cor preta. Segui as instruções. Sentei-me a escrivaninha peguei o bloco e o lápis e comecei a desenhar
formas abstratas e sem sentido para distrair a mente. Então o pesadelo começou. Senti um forte enjoou que
me fez vomitar sem parar, mil agulhas queriam
sair da minha cabeça e não conseguia tirá-las pois não conseguia
sequer levantar as mãos, meu corpo
desfaleceu e caiu ao chão enquanto sentia a urina e a merda viscosa escorrerem
entre minhas pernas sem precisar fazer
qualquer esforço, como se meu intestino e bexiga e meu estomago não me pertencessem.
Haviam ganhado vida e livre arbítrio. Tentei
gritar, pedir ajuda para a câmera vigilante, mas quando abria a boca só um vômito
incolor vertia. Eu tinha perdido o controle sobre meu organismo. Agonizava e a
esperança de sair vivo e rever minha filha se esvaiu assim como todos os fluidos
fétidos que jorravam por todos os meus orifícios até sobrar somente a pele enrugada colada aos ossos. A cela antes
tão limpa e sem odor, agora era pura podridão com cheiro de morte.
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